Um pouco mais de Ronda

No nosso último dia resolvemos não subir os mais de 60 degraus e conhecer as cercanias de nossa linda Pousada, que fica fora das muralhas da cidade e vizinho aos Banhos Árabes, uma das atrações da cidade. Fomos conhece-los.

É um lugar muito interessante e ainda preservado desde os tempos mouros. Era um lugar de encontros sociais, de purificação para as orações, de cuidados com o corpo que incluía um amplo salão para massagens, sauna úmida e seca, piscinas, e era frequentada, claro, só por homens.

Mas, o mais interessante e engenhoso era a maneira como eles faziam essa sauna funcionar. Acima de toda a construção há um mecanismo que trazia água do rio que passa por baixo, sob a forma de um moinho d’agua de muito metros de altura, movido por um pobre de um jumentinho que passava todo dia andando em círculo, coitado. Essa água era jogada em uma canaleta que a levava até uma fornalha – alimentada por um escravo humano, que ficava o tempo todo jogando lenha. A água quente circulava pelo piso, soltando fumaça nos quartos da sauna e agua quente para as piscinas. Abaixo o que restou do poço. Olhar pra baixo dá vertigem.

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Dos Baños se tem tambem uma bonita vista da ponte árabe.

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Saindo dos Baños, passeamos ainda um pouco seguindo pelo lado de fora das muralhas, mas o tempo não permitiu ir até a parte de cima por esse lado. Fica prá próxima.

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Setenil de las Bodegas, dá prá não ir?

Pois! Um nome desses é um convite à visita, né não? Mesmo que por aqui o termo “bodega”tenha um significado diferente do nosso, no nordeste, quando a gente ouve (ou lê), fica sempre a impressão que vamos entrar em uma cidade onde impera a esbórnia. Porque bodega também é (no nosso sentido) um lugar onde se vende bebida barata, além de secos e molhados.

Setenil de las bodegas é uma cidade única. Nunca tinha visto algo assim. Enquanto que Ronda foi construída em cima dos penhascos, Setenil foi construída embrenhada neles. Pense numa coisa estranha e assustadora. As pedras se projetam nos tetos das casas, suas paredes do fundo são de pedra. Aff, é bonito, mas… E quando chove, como fica? A água entrando pela pedra porosa não arrisca cair? Sei não…

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Fomos num bate-volta, saindo de Ronda, de ônibus comum que custou 1,81 euros por cada passagem. Foram algo como 30, 35 minutos, passando por outros “pueblocitos”, brancos e lindos. Na volta o ônibus não passou (parece que por ser época de feriados os horários não são rigorosamente cumpridos) e tomamos um taxi, que nos custou 28 euros.

A cidade, por ser em uma montanha, tem também muitas ladeiras. E em cada curva da ladeira era um “ohhhh, que lindo”, “olha essa pedra”, “olha a paisagem”. Deslumbrante. Em uma dessas curvas nos deparamos com a Torre Árabe, uma construção quadrada e não muito alta. Pois dentro agora é uma espécie de museu católico, cheio de coisas de ouro e modelos de roupas usadas nas procissões, com aqueles chapéus bicudos, que lembram a Klu Klux Klan, mas que era usados pelos penitentes. E estandartes da Virgen de la Solitud, com sua cara de angústia e lágrimas caindo. Como sempre, não gosto. E penso que os árabes tampouco.

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Fiquei com curiosidade sobre o nome Setenil, mas, claro! o Google me ajudou. Pra quem está com preguiça de ir lá, copio do Wikipedia e colo aqui uma parte:

“Según la crónica de Bernáldez, la conquista de la villa era fundamental para la corona en su avance hacia Granada, y el sitio de 1407 no proporciona el fruto deseado. Desde ese momento Setenil es considerado casi inexpugnable y puerta fundamental para la reconquista del reino nazarí. Desde los tiempos de Juan II de Castilla hasta el reinado de los Reyes Católicos se producirán siete sitios, de ahí el nombre de la ciudad Septem nihil, siendo el último –21 de septiembre de 1484– el que conduce a la victoria.”

 

Pueblos Blancos, Ronda

Não, nós não estávamos com saudade das escadas e ladeiras de Positano. Mas, não teve jeito. Depois de uma Córdoba bem retinha, tivemos que encarar as escadas e ladeiras de Ronda. Primeiro porque nosso hotel fica na parte mais baixa, junto à Ponte Árabe e os Banhos Árabes, cujo acesso ao centro se dá por 60 degraus (contadinhos) e mais umas 4 ladeiras de pedrinhas simpáticas, mas estafantes. Nesse percurso vemos as 3 pontes que dão fama ao lugar: a árabe, a “viejo” e a “nuevo” (lembrando que ponte é uma palavra masculina em espanhol). Embaixo dessa pontes está uma espécie de garganta ou cânion, que em espanhol se chama “tajo”, com o rio Guadelevín passando bem abaixo. É uma coisa linda de ser ver. A cidade foi toda construída entre essas duas partes do desfiladeiro, que é todo seu encanto.

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A cidade tem ainda muita construção árabe. A melhor preservada é a Casa do Rey Moro, porque ao longo do tempo foi sofrendo restaurações (e modificações). O acesso a ela é feito pelo Arco de Felipe, monumento feito quando se construiu a Ponte velha e se precisava dar uma melhor imagem à entrada da cidade.

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Outra atração da cidade é sua Plaza de Toros. Passamos perto, mas não quisemos entrar. Somos contra essa prática bestial. Seguimos batendo perna e nos deparamos com um “Museo do Peinado”. Eita, vamos lá, quem sabe não aprendemos sobre os penteados da época moura por aqui. Fomos. Era o Museu Joaquim Peinado, um senhor rondeño que gostava de artes. Também nos chamou atenção o Museu do Bandolero, aí sim, com um significado semelhante ao nosso, bandolero era o assaltante dos viajantes pelos caminhos das montanhas, e aqui na Andalusia era um dos lugares onde eram mais frequentes. Porque existe um museu dedicado a eles, não me perguntem.

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Ronda é uma cidade cercada por plantações de oliveiras e por vinhedos. Existem passeios às bodegas, mas nosso tempo escasso não permitiu faze-los. O que não nos impediu de tomar bons vinhos rondeños, do qual destacamos a bodega Chinchilla, com vinhos muito legais. Também se pode comer “bocadillos” (sanduíches) de jamón ibérico ou serrano. Aprendemos a diferença: o ibérico é o “pata negra”, de melhor sabor e qualidade que o serrano. E mais caro, claro. Mesmo assim, um sanduíche, em um pão grande, de jamón ibérico sai por 6 euros. Se você compra uma garrafa de vinho por 8, está com seu jantar garantido.

Assim é Ronda, uma cidade pequena (cerca de 40 mil habitantes), mas muito peculiar, bonita, limpa e, claro, branca.

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A Mesquita-Catedral de Córdoba

Todos sabem que a Mesquita-Catedral de Córdoba é a sua mais famosa edificação. E se não sabem, já deve soar estranho algo que se chama Mesquita-Catedral. Como pode um templo que é ao mesmo tempo muçulmano  e cristão? Pois. A história é grande e começa por volta do século VIII, mas quem quiser saber os detalhes pode dar uma “googlada”, que vai achar muita coisa. O resumo da ópera é que havia uma igreja cristã e os muçulmanos ao invadirem negociaram para construir um “puxadinho” (o que em termo de árabes vocês já imaginam o tamanho e a beleza) para poderem fazer suas preces. Depois de mil reviravoltas, a igreja católica tomou conta e hoje em Córdoba, os muçulmanos tem um templo pequeno só pra eles, em outro lugar.

A Mesquita-Catedral é, por fora uma construção estranha. Nós ficamos um tempão procurando a porta de entrada, porque estávamos acostumadas aquelas portas monumentais das igrejas católicas, e aqui o que há é um monte de portas pequenas, ao redor do prédio. Depois entendemos que essas portas dão acesso não ao templo propriamente dito, mas a um lindo pátio, cheio de laranjais e fontes, um jardim muito bonito.

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A partir dai há uma porta ao fundo que dá acesso ao templo, desde que se pague, claro! Pagamos 8 euros cada uma.

E ai, quando se entra é uma coisa impressionante. Um imenso salão, com colunas formando arcos listrados, despojado de riquezas e apenas os detalhes mouriscos da decoração das paredes. Mesmo que ao redor desse salão se vejam pequenas capelas gradeadas, a impressão é de que é mesmo um lugar despojado para orações.

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Ai, você segue por uma porta lateral e se depara (ofusca?) com muito ouro. Muito, mas muito mesmo.

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Esses ouros todos vão estar presente no que considerei a “herança” católica para o lugar. É um contraste incrível e que a mim me surpreendeu e meio que indignou. Olhem esse ostensório, ou sei lá o que é isso:

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Em mim ficou a mesma impressão que tenho quando entro nessas igrejas católicas muito douradas e super, over rebuscada: não gosto. E tenho certeza que o Papa Francisco também não 😀

Prefiro o salão com os arcos listrados.

Felizmente salvou o lado católico uma maravilhosa orquestra que tocava música gregoriana. A princípio achávamos que era música gravada, como temos visto muito por ai, mas, de repente, nos encontramos com a orquestra, infelizmente tocando os seus últimos 10 minutos.

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A Mesquita-Catedral merece uma visita, claro. Até porque tem algumas obras de arte para se apreciar e muita história envolvida em cada capela daquelas. Mas, sinceramente, Alhambra, em Granada é muito mais bonito enquanto herança moura e a Sagrada Família é insuperável enquanto templo católico.

Córdoba, amor à primeira vista

Arrependi-me profundamente de ter começado o percurso por Córdoba. Porque vai ser difícil achar outra cidade mais bonita, mas agradável, com uma energia tão como como essa aqui. Cai de amores por ela. E se voces me perguntarem exatamente o que me fez tão enamorada, confesso que não saberia particularizar nada.

Chegamos em Córdoba pelo meio da tarde. Nosso hotel fica bem dentro do que eles chamam “casco histórico”,  em uma das ruas que ladeiam a Mesquita-Catedral, ou seja, no meio do agito. E, de cara já gostei daquele movimento, que não era uma coisa sufocante, nada daquela coisa de vendedor te enchendo o saco pra comprar, de garçon de empurrando cardápios na cara. É uma coisa legal, de gente bonita, caminhando, fotografando. E muitos, muitos japas!

E de bem perto da Mesquita (e do nosso hotel, claro) já avistamos o rio Guadalquivir, que corta a cidade, com a ponte romana, linda, tendo do outro lado a torre Calahorra. Margeando o rio, pelo lado antigo, há uma imensa avenida, arborizada, com bancos na calçada, muito legal.

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Amo becos e não é a primeira vez que digo isso. Perder-me no meio das ruazinhas estreitas é uma das minhas diversões preferidas. Mas, uma coisa me chamou a atenção nos becos de Córdoba, que não havia encontrado em nenhum outro lugar: são limpos, luminosos, enfeitados com vasos de flores, paredes pintadas de branco e chão de pedras limpinhas. Aliás, a limpeza foi uma característica de toda Córdoba, não só a parte antiga. As ruas são limpíssimas e se tem algo no chão, são folhas secas caidas das árvores. Nenhum papel, nenhuma guimba de cigarro. Além dos becos, Córdoba tem outra característica, herança árabe, que são os pátios. As casas tem suas fachadas, geralmente com portões de ferro, e ao entrar se abre um pátio florido, às vezes com poços de água ou pequenos lagos, mas sempre com muita luz, muita cor. Há, inclusive, uma associação de pátios de Córdoba, que cuida da preservação dos mesmos.

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Olhem que pátio mais lindo!

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Uma coisa linda também que se vê pelas ruas são as laranjeiras. Por onde se passa, cidade antiga ou parte moderna, há pés de laranja, com laranjas lindamente maduras. Dizem que não são boas para chupar, mas apenas para fazer doce ou compotas. Não sei, mas que é um charme, isso é.

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Comparada com outras cidades da Europa, a Espanha não é um país carro para o viajante. O nosso hotel era um hotel butique (seja lá o que isso signifique), com uma decoração linda, moderna, confortável. Curiosamente o banheiro era separado do quarto por uma parece de vidro, e se voce quisesse alguma privacidade, precisava puxar uma cortina. Não ficou feio, mas era estanho. O meu medo era que enfiássemos a cara no vidro, sem perceber, dai que deixamos sempre a porta aberta, “por las dudas”. Pagamos 50 euros por dia, em um quarto duplo, sem café da manha, que poderia ser pago à parte, por 5 euros.

O grande lance da comida são as tapas. As porções não são minúsculas, pode-se pedir para compartilhar e, dependendo da escolha, uns 2 ou 3 pedidos vale uma refeição. E se paga entre 6 e 12 euros por porção. Uma taça de vinho, algo como 3 euros. A comida cordobesa tem umas coisas diferente para nós. Por exemplo, um dos pratos típicos é berinjela frita com mel de cana, e é uma delícia, sobretudo se voce come acompanhando um rabo de touro, esse sim, um prato dos deuses, de comer de joelhos. E não tem nada a ver com nossa rabada gordurosa. Se come muito bem nessa cidade, aff.

 

Fim de ano na Andaluzia

Ano passado estive em Barcelona no final do ano e me pareceu a melhor época para se visitar a Espanha. Temperatura variando entre 11 e 18 graus, dias lindos de sol brilhante, pouquíssima possibilidade de chuvas. Tudo de bom.

Com isso na cabeça, resolvemos esse fim de ano de 2015, visitarmos outra vez a Andaluzia. Já estive em Sevilha e Granada, mas agora no roteiro incluímos Córdoba e Ronda, uma cidadezinha situado na região dos “pueblos blancos”. Não vamos a Granada, mas estaremos na passagem do ano em Sevilha.

Pretendemos ir de Madrid para Córdoba em trem AVE (pronuncia-se em espanhol “abê”, com aquele som entre v e b tão próprio do idioma). De lá também de trem para Ronda. Em Ronda pretendemos visitar outras cidades próximas, mas ainda não sabemos como faremos. Contarei. E, por último, de ônibus até Sevilha.

Vamos lá.