Em Lisboa, já com um pé no Brasil

E ficamos 2 dias nessa cidade que amamos de todo coração. Lisboa nos dá uma sensação de familiaridade, como se a gente já estivesse em casa. Gostamos muito, muito mesmo daqui. E desta vez tivemos dois motivos adicionais para aumentar nosso amor.

Primeiro foi reencontrar minha amiga-irmã Albertina, que nos apresentou duas amigas maravilhosas: Edite e Elisabeth, essa última uma psicóloga brasileira que vive em Lisboa a tanto tempo que já tem o sotaque completamente portugues. E elas nos levaram para jantar em uma cidadezinha a 30km de Lisboa chamada Arruda dos Vinhos. Foi ótimo! A turma tem o melhor daquele humor portugues que eu tanto gosto. Divertidíssimas!

Depois foi o Hotel Borges. É a segunda vez que me hospedo nesse Hotel, que está no coração do Chiado, quase vizinho ao “A Brasileira”. É um hotel simples, mas super bem localizado, porque o Chiado é tudo de bom em Lisboa. Nosso quarto tinha uma varandinha que dava pra o buchicho todo e todas as noites fomos agraciadas com um evento cultural, shows de musica que assistiamos sem sair de casa.

O melhor deles foi de um grupo de Cabo Verde chamado Guents dy Rincon, com uma música tão contagiante e tão boa, que dava vontade de dançar. Gravei uma parte do show. Infelizmente ficou escuro, mas vejam que som.

Coisas da Sicilia

1. Tem um doce ótimo e típico de lá: o Canolo. É uma massa de biscoito meio enrolada com um recheio. Os que comemos ttinham recheio de ricota. O melhor é o de Catania, disparado. Esse ai é o píccolo.

2. Em Catania a carne nobre é a carne de cavalo. Achamos estranho, pensavamos que aquele nome (“cavallo”) nos cardápios significava outra coisa, mas não, é cavalo mesmo. Eles tem criação de cavalos para abate. Dizem que é uma carne mais saudável e boa para anemia porque é bem vermelha. Eca!

3. Há uma disputa declarada entre Palermo e Catania ao ponto de não se encontrar em Catania nenhuma mulher com nome de Rosalia, que é a santa padroeira de Palermo. É uma coisa mesmo muito seria. Nunca diga que uma é melhor que a outra.

4. Os sorvetes são ótimos, como parece ser em toda Italia, mas nos chamou atenção em Siracusa um que era feito com azeite de oliva, substituindo o leite. Não provamos. Nem deu vontade.

5. Claro que todo mundo sabe a variedade de cafés que existe na Italia, mas aprendemos que o capuccino não tem aquele monte de ingredientes que se coloca no Brasil (canela, chocolate, sei lá mais o que), que o deixa muito mais para doce do que para café. O cafe latte é servido em um copo de vidro quase totalmente cheio de leite, com uns 5ml de café jogado dentro. O café macchiato é, ao contrario, uma xícrinha de café com umas 2 gotas de leite.

Siracusa, 740 anos a.C.

E nossa viagem pela Sicilia termina no lugar mais  bonito que percorremos: Siracusa. Fiquei completamente encantada com essa cidade que foi colonizada pelos Corintos, em quase 740 anos antes de Cristo, e onde foram encontrados vestígios de comunidades da Era do Bronze.

É assim: Siracusa tem uma ilha, a ilha da ilha. Na verdade uma ilhota, separada do “continente” (eles falam assim mesmo, apesar do “continente”ser tambem uma ilha) por um pequeno braço do Mediterrâneo, um bairro chamado Ortigia, que foi onde tudo começou. Existe, então, uma Siracusa mais “continental”, que é mais moderna, mais nem tanto, e Ortigia, antiga, com ruas estreitas e tortas sem calçadas, praças amplas com piso de pedras brancas e um marzão lindo, azul escuro, de aguas limpíssimas.

Esse braço de mar separa o “continente” de Ortigia
As ruas de Ortigia são assim ou até mais estreitas

Na parte do “continente” tem um imenso e belo parque arqueológico, onde, entre outras coisas pudemos ver um teatro romano, onde aconteciam espetáculos de luta, e um teatro grego, enorme, onde aconteciam espetáculos teatrais. Aliás, quem nasceu por aqui foi Ésquilo. Outro siracusano ilustre foi Arquimedes.

O teatro romano
O teatro greco

Suas ruas são contornadas por espirradeiras rosa e branca, que dá um ar encantador. Além disso ao longo de toda a avenida principal (o Corso Umberto I) existem bancos de madeiras virados pra rua, que nos permite fazer pausas na caminhada e ficar olhando os carros passarem. Nos deu a sensação de uma cidade pensada para as pessoas, não para os carros.

As espirradeiras do Corso Umberto I

Mas é em Ortigia que está a maior parte das antiguidades. Uma delas está logo no começo da ilha: as ruinas do Templo de Apolo, que fica numa praça super simpática, onde se reunem os siracusanos no final da tarde para tomar um café ou simplesmente conversar.

Mas é quando voce vai caminhando para o interior da ilhota que ela  fica mais linda. Uma das belezas é a fonte da Aretusa, com um imenso Cyperus Papirus, a planta de onde, obviamente, se faz o papiro. Pelo que soubemos, aqui é uma das poucas regiões no mundo onde ela cresce.

E o mar Mediterrâneo, majestoso e belo.

Enfim, Siracusa/Ortigia é uma cidade para se passar mais tempo. É tranquila, sem aquela enxurrada de turistas de Taormina, sem ladeiras e com um clima mais ameno que as outras cidades. Se voce só tiver que ir a um lugar na Sicilia, vá a Siracusa. E se hospede em Ortigia.

Taormina, no topo da montanha

De Catania tomamos um trem pra Taorminas, que está há coisa de 60km, ou cerca de 1 hora de trem. Existem 2 Taormina: uma que fica no nível do mar, chamada Taormina Giardini, e outra que fica a 300 metros de altura, em cima de uma montanha, por uma estrada estreita e cheia de curvas. O trem, obviamente, para na parte baixa.

O encanto começa com a própria estação. Linda!

Dai tomamos um taxi (15 euros) até a parte de cima, onde está a parte mais linda da cidade. E como é linda. Parece muito com Cefalù no estilo, mas é muito maior, com panoramas belissimos e com um comercio mais chic (vi, por exemplo, uma loja de Ermenegildo Zegna).

 

Existem várias edificações de valor histórico como o Teatro Grego, onde não chegamos a entrar porque o sol estava muito forte, e uma outra mais acima, que não chegamos a saber de que se tratava (e tambem não subimos).

Em um Museu Siciliano encontramos um tipo de carroça que temos visto por toda Sicilia. É linda e parece ser usada em festas e comemorações

Detalhe de uma das carroças.

Uma outra tradição siciliana é o teatro de marionetes. Aqui pudemos ver alguns deles, representando cavalheiros em batalhas.

Existem muitos hoteis e ficamos meio arrependidas de não termos ficado hospedadas aqui. Até porque vimos várias lojas de turismo oferecendo excursões para todo o entorno e até para Siracusa.

Esse hotel parece ser o mais bem posicionado. Esta na ponta da rua, vizinho do teatro Grego e com uma vista espetacular. Deve ser caríssimo.

Comemos bem, em uma das tratorias dos bequinhos laterais, descemos de taxi e tomamos o trem de volta, com a certeza que Taormina super vale a pena!

Catania, de cinzas e laranjas

Confesso que só passei a saber que existia uma cidade chamada Catania (pronuncia-se com o 2o. “a” aberto) ha cerca de um mês. Na verdade, de todas essas cidades que estou visitando, só sabia da existencia de Palermo e Siracusa. E essa última acho que nos livros de História. Então, quando pensamos em fazer uma parada em Catania era muito mais pela sua localização entre Taormina e Siracusa, até porque todos os guias e blogs que consultamos deixavam mil reticências quando se referia a ela. Pela falta de referencias já estávamos decididas a ficar em Siracusa, até que o recepcionista do Hotel Amici, em Agrigento, nos disse que Catania era “a MIlão do sul”. Resolvemos arriscar.

Tomamos um trem. Péssima escolha. A viagem é demoradíssima. Foram 4 horas para chegar, em um trem desconfortável e parador. Talvez de ônibus seja melhor. Ah, devo dizer que desistimos de alugar um carro quando encontramos 2 brasileiras que vinham viajando de carro desde a Toscana e nos disseram que o pior lugar pra dirigir era justamente a Sicilia. Não pelas estradas, que são boas, mas quando se entra nas cidades não há sinalização, não há placas indicando as ruas, enfim…

Como diz o guia de Fá, Catania é a cidade das cinzas e das laranjas. De fato, durante boa parte do percurso do trem vimos laranjais até nos canteiros das rodovias. O problemas são as cinzas. Toda a parte mais antiga da cidade tem seus predios com uma tonalidade “suja”, com a cor das cinzas do vulcão Etna se misturando ao branco do reboco original. Fica muito esquisito. Parece realmente sujo. Fiquei pensando em minha cunhada, que diria algo como “não dava pra eles darem uma limpadinha?”

De fato, Catania tem uma rua enorme, a Via Etneia, que tem uma parte de comercio chic e outra (mais no topo) de um comercio mais pobrinho. E é onde fica o B&B que ficamos. Descemos a pé e nos deparamos com um jardim imenso e de uma beleza diferente do jardim dos ingleses de Palermo: o Giardino Bellini. Aliás, Bellini, o famoso músico, nasceu aqui e é homenageado de varias maneiras.

Confesso que não gostei muito do estilo meio “over” (meio over é otimo!) da Catedral. A bela fonte que esta próximo a ela está escondidinha num canto da praça.

A grande curtição foi mesmo passear pela feira. Verduras e legumes belissimos, alguns desconhecidos para nós.

Olha esse couve-flor rosa, que coisa linda!
Tomate cereja, uma especialidade da Sicilia. Se usa refogado.

A idéia de pegar uma excursão daqui para Taormina e para
Siracusa não funcionou. Não há esse tipo de excursão. Se voce quiser pode pegar trem ou ônibus e se virar, mas excursão organizadinha, em ônibus com ar condicionado (o calor continua infernal)), guia, essas coisa, não tem. Excursões por aqui só para o Vulcão Etna, e só em pensar em subir uma encosta calorenta, já nos dava desanimo.

Enfim, Catania é isso: uma beleza diferente.

 

A experiência de se hospedar em um B&B

Sempre achei que um Bed and Breakfast fosse uma dessas hospedaria para jovens, com banheiro coletivo, tipo Albergue da Juventude. Como não tenho mais idade para não ter um banheiro só para mim (aliás, acho que nunca tive essa “idade”), os B&B nunca me interessaram. Até buscar hotéis em Catania. A quantidade que encontrei no Booking.com foi enorme. E não eram baratos. Alguns com preços mais altos que hotéis. Um particularmente nos chamou atenção pelas fotos e pelos comentários dos que se hospedaram por lá: o In The Garden. Como se situa na via Etnea, uma das principais de Catania, resolvemos reservar lá.

O problema inicial foi que não havia nenhuma placa ou indicação que aquela casa era um hotel. E quando paramos o taxi, ficamos em dúvida se o endereço era aquele mesmo. Trata-se de uma casa antiga, provavelmente século XIX, com uma decoração muito legal, um jardim gracioso e um moço super simpático (que fala espanhol!) nos recepcionando.

De cara me causou estranheza que ele tenha nos mostrado a cozinha, a sala e somente depois foi que nos mostrou nosso quarto. Claro, deve ser exatamente assim nos B&Bs, mas eu não sabia. O nosso quarto era bastante grande com um piso em mosaico lindo, um papel de parede de florzinhas e uma luminária bem anos 30. Mas o banheiro, apesar de exclusivo, não era dentro do quarto e sim em uma porta bem em frente. E é lindo, lindo!

Mas o que realmente nos causou bastante estranheza – um pouco de ansiedade mesmo – foi que a noite ficávamos sozinha naquele casarão, donas da casa. Ouviamos barulhos no andar superior, que é onde mora a dona, mas nenhuma comunicação. Na verdade nos sentimos meio desamparadas. Se precisássemos de alguma coisa, como fazer? Se faltasse luz, se o banheiro entupisse, se acabasse o papel higiênico, a quem recorrer? Concluimos que apesar da sensação de estar “em casa”, precisamos de uma portaria 24 horas por dia. Afinal somos “anziani”

Merece uma menção especial o moço que nos atendeu. Simpático, gentil, disponível, uma gracinha. Chegava todo dia em torno das 7 e meia da manha, aprontava nosso café e quando retornávamos dos passeios ele já não estava. Mas conversamos muito com ele. Chama-se Simone Maria, o coitado. Na Italia Simone é nome masculino, vejam só. Ele vai estar no Brasil no próximo ano para o Congresso Internacional da Juventude, da Igreja Catolica. Claro que dissemos que tratasse de encontrar outro nome para usar no Brasil porque com aquele ia ter muitos problemas. Explicamos porquê e rimos bastante pensando nas situações possíveis. Foi ótimo tê-lo conhecido e a sua amiga Martina.

Olha o piso do nosso quarto, que lindeza!

Agrigento, muita história

De Palermo a Agrigento fomos de trem, em uma viagem que demora 2 horas e custa 8,40 euros. Chegamos meio atarantadas, cansadas e com fome (eram quase 3 da tarde). O posto de informação estava fechado para o almoço. Legal, né?

Tinhamos visto no Google Maps que o nosso hotel era muito perto da estação, assim tipo na mesma rua. Iamos saindo quando fomos abordadas por um senhor nos oferecendo taxi. Tentamos explicar que nosso hotel é muito perto. Ele: “Hotel Amici? não dá pra ir a pe. Eu levo vocês lá”. Nós: “quanto?”. Ele “10 euros”. Poxa! 10 euros era o que tínhamos pago do nosso hotel em Palermo até a estação! Mas estávamos tão cansadas que já estávamos aceitando. Nisso passa o senhor que nos cobrou os bilhetes no trem, e Fátima, despachada como sempre, resolveu agradecer a ele e aproveitou para perguntar se 10 euros era razoável para irmos ao Hotel Amici. O cara ficou uma fera com o taxista, xingou e esbravejou com ele e indo conosco até a porta da estação, nos mostrou o Hotel, do outr lado da rua.  Essa foram nossas boas vindas a Agrigento. Mas, dai pra frente tudo foi muito legal!! Agradecemos aos nossos anjos da guarda e nos convencemos que aquele mal caráter não iria manchar a boa impressão que estavam nos causando os italianos.

Agrigento é uma cidade em 3 níveis. O nível mais alto, onde parece estar o comercio geral, bancos, hotéis, e onde ficamos. Um segundo nível, onde está o maravilhoso Vale dos Templos, e um mais abaixo, já a beira mar, onde não fomos. Isso a torna uma cidade espalhada, cheia de ladeiras e escadarias, logo complicada para se conhecer caminhando. Além do mais do meio-dia até umas 4 e meia da tarde foi impossível se andar a pé por conta do sol implacável e do calor de 35 graus! Parece que por aqui não existe outono. Mas tudo isso vale a pena para se conhecer a terra do filosofo Empédocles e de Luigi Pirandello.

Pra começo de conversa é uma cidade que existe desde meio milenio ANTES de Cristo. Não como ela é hoje, porque ela foi devassada várias vezes nas guerras púnicas, entre romanos e cartagineses. Mas pudemos ver como ela foi quando visitamos o Vale dos Templos. É um passeio absolutamente imperdível!. Saimos cedo, pegamos o ônibus 1 (pode ser também o 2 ou o 3) que nos deixou na entrada do enorme vale. Por coincidência era o dia da Cultura e em toda Italia o acesso a museus e sítios históricos estavam liberados.

Logo na entrada nos deparamos com o Templo de Hércules

Mas o mais bem conservado é o Templo da Concordia, que é belíssimo! Dá um arrepio imaginar que aquela construção está ali desde 480 a. C. Fiz umas fotos de manhã e voltamos no final da tarde, porque imaginei que com a luz poente ficaria maravilhoso. Como de fato.

Um outro Templo também razoavelmente conservado é o Juno, que fica no topo da colina

O passeio por esse Vale vale toda a visita a Agrigento. O melhor é visita-lo a tarde, quando o calor (pelo menos nessa época do ano) dá um alívio e a luz do sol fica linda, refletindo nas cores ocres dos Templos.