Comendo na Andalucía

Já tive meu tempo de viajar e comer sandubas e buscar os lugares baratinhos. Mas também nunca cheguei ao ponto de só comer em lugares que estejam no guia Michelin ou coisa parecida. De uma maneira geral, no meio da batida de perna pela cidade, olhamos pra um lugar e decidimos comer lá. Tem que ser um lugar simpático, de preferência pequeno e que nunca, mas nunca mesmo, tenha o cardápio com fotos enormes dos pratos na porta. Nesses, nem olho. Detesto isso, porque, obviamente, é um engodo. Também, tal qual minha nora, não gosto quando tem o termo “gourmet” no nome. Me parece boçal. (Na verdade esse tipo de coisa acontece mais no Brasil e parece ser modinha gastronômica). Ah, e se tiver cadeiras de metal ou televisão ligada, nem pensar!!!

Alem de lugares pra comer encontrados de modo causal, algumas vezes consulto o aplicativo Yelp ou o Trip Advisor, que dá dicas de lugares perto de onde a gente está. Mas é preciso cuidado porque as indicações são ranqueadas de acordo com a opinião dos visitantes, e você não pode ter certeza que eles gostam das coisas como você gosta. Enfim, prefiro a intuição. Às vezes nos damos muito mal, mas temos tido surpresas agradáveis.

Claro que quando se viaja, faz parte conhecer a gastronomia local. Você não vai querer comer feijoada em Zagreb, né não? E ai começa o problema de olhar pro cardápio e saber o que é o que.  No primeiro dia que chegamos a Córdoba entramos no El Caballo Rojo mortas de fome. A senhorita nos apresentou o cardápio e foi explicando o que eram as coisas. Estávamos cansadas, havíamos acabado de chegar de viagem e pedimos sugestões.Ela nos sugeriu salmorejo andaluz, “que estava muy rico” e carrillada de ternera. Minutos depois ela nos trás uma sopa fria cor de cenoura e algo que parecia uma carne guisada cercada por batatas fritas (universal, arre!). Ficamos olhando e nos pareceu que aquilo era como um paté mole, pra se comer passando no pão. Assim, fizemos. Detestamos o tal salmorejo. Depois viemos a saber que ele é primo do gazpacho, é feito com tomate, azeite e miolo de pão e é que pra se comer com colher e não passando no pão! Por outro lado a carninha guisada estava divina.

E os preços? Bom, em quase todos os lugares que comemos, o cardápio vem com a opção de meia ração ou ração. A meia ração são as tapas, que se pede mais de uma e geralmente se compartilha. A ração é o prato maior. Sempre pedimos meia ração e compartilhamos, com idéia de conhecer o máximo possível. Pois, se fizer assim, não sai caro. Geralmente pedíamos uma “ensalada” e duas meia porções, mais duas taças de vinho da casa e “algo de postre” (sobremesa), e pagávamos cerca de 20, 20 e poucos euros. Para se ter uma idéia, taí abaixo um cardápio como exemplo

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Para mim a melhor comida espanhola é o rabo de toro, que, na verdade, começou a ser feito em Córdoba. Não tem nada igual e tem muito pouco a ver com a nossa rabada. Primeiro que a carne é quase que completamente sem gordura, depois que a maneira como fazem inclui temperos que não incluímos aqui, como gengibre, por exemplo. E a carne é cozida no vinho!

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Comi rabo de toro em vários lugares, mas se tivesse que escolher o “the best”, diria que é o do “El Rincón de Carmem”, que alem de fazer uma comida deliciosa, é um lugar muito simpático.

Uma outra coisa interessante que conhecemos lá foi um prato feito com berinjelas em fatias finas, empanadas, fritas e com melado de cana de açúcar por cima. Fica muito gostoso pra acompanhar carne, por incrível que pareça.

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Uma sobremesa tradicional é “la leche frita” (leite é feminino, em espanhol). Não comemos, mas vimos a receita.

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Na despedida de Sevilla, a chuva

E voltou a chover no nosso último dia. Era domingo, um dia que deveria por lei ser sempre de sol. Mas não era. Estava chuvoso, com aquela garoa irritante e o céu encoberto. Bom, que fazer? Aproveitar mesmo assim.

E fomos conhecer o Centro de Andaluz de Arte Contemporânea, que funciona em um antigo convento dos monges cartuxos, que era (ou é? não sei se ainda existem) uma ordem solitária e contemplativa. Conta a história que mesmo antes de o espaço ser um monastério, era um lugar de fabricação de cerâmica, e que um dia encontraram uma imagem da virgem em uma das covas e resolveram construir uma igreja, que depois se transformou em monastério, regido pelos Franciscanos. É interessante como essa história de se encontrar uma imagem sempre se repete.

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Em final dos anos 90 do século XX o espaço é transformado em Museu de Arte Contemporânea e recebe exposições de todo mundo.

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Bom, não sou a melhor pessoa para apreciar arte contemporânea. As instalações não me dizem nada, ao contrário, me fazem rir do ridículo que muitos deles me parecem. Então, me vi apreciando apenas a estrutura do prédio e o que resta da antiga decoração interior do convento.

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Depois saímos para visitar a feira de artesanato (onde comprei uma bolsa lindona! hehehehehe). A cidade, mesmo na chuva e de ser domingo, estava cheia de gente andando pelo comércio das ruas. E, de repente nos deparamos com uma estrutura absolutamente moderna e contrastante com o que existia ao redor: o Metropol Parasol, mas conhecido com As Setas. É uma construção belíssima, de onde se tem uma vista da cidade. Não subimos, fica prá próxima.

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E assim nos despedimos de Sevilla, esperando voltar para um pouco mais de tempo. Hoje pegamos um ônibus para Madrid, onde pernoitamos e amanhã voltamos pra casa.

Sob o sol de Sevilha

E fomos agraciadas pela natureza. O sábado amanheceu radioso. Sol e frio de 17 graus, a combinação mais maravilhosa que um viajante pode esperar. Ou pelo menos a viajante aqui que vos fala.

E sob o sol, Sevilha tem outros ares. E permite que se desfrute com mais tranquilidade sua beleza. Saímos à pé, passeando pelo Parque Maria Luisa, seguindo pela Praça Espanha. A praça é uma imensa construção em semi-arco, com fontes e lagos no meio. E nesse semi-arco existem murais em azulejos de todas as províncias da Espanha, dispostas em ordem alfabética. De modo que se você quiser fotografar alguma cidade em especial, cuide de entrar na praça pelo lado certo. Eu queria fotografar Sevilha e Valência, mas entrei pelo início do alfabeto.

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É tudo muito bonito, mas confesso que, para mim, me parece um excesso de informação visual e estética. É como se quisessem mostrar tudo em um único momento.

Essa característica meio que se repete em outras construções. Um pouco “over” para o meu gosto. Prefiro a riqueza delicada dos detalhes dos mouros.

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As ruas estavam cheias de gente. Impressionantemente cheia de gente. Uma coisa interessante que se observa em toda a Espanha, mas que parece que aqui é mais, é o hábito de se beber em pé, seja no balcão dos bares, seja naquelas mesas altas, com bancos altos, mas que ninguém se senta, todos ficam em pé ao redor dela. Pois com o sol, foi como todos saíssem de suas tocas e fossem para os bares beber cerveja, fumar e conversar. Passamos pela Praça do Salvador e era uma verdadeira muvuca. E no meio de tudo isso, passava, passivamente, uma procissão. Rimos muito.

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E depois nos perdemos pelos becos, mais uma vez. Sevilha é uma cidade grande, com avenidas largas (um chamada de “Paseo de las Delícias”, que me pareceu maravilhoso!), muitos parques e jardins, mas nada como os becos. Sem simetria, sem lógica, bom de se perder. Sevilha é uma cidade ocre. Os prédios tem uma predominância de cor de tijolo, ou marrom ou avermelhado. E ai observamos uma diferença com os becos de Córdoba, que são brancos brancos, com janelas ou portas azuis e vasos azuis com flores.

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Nesses becos há uma mistura de comércio antigo, velhos armarinhos, lojas de chapéu, luvas, e o comércio internacional, como o Rituals, o Lush e a infalível H&M. E, particularmente nesse dia, as ruas estavam absolutamente lotadas de gente. As lojas com “rebajas”, entupidas de gente. Parece que a crise está grande aqui também 😀

E a noite cruzamos a ponte do rio Guadalquivir e fomos conhecer o bairro de Triana, antigo lugar donde viviam os ceramistas e os ciganos, hoje transformado em bairro boêmio, cheio de bares e restaurantes. É um bairro muito bonito, que nos lembrou Trastevere, em Roma.

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Sevilla, primeiras impressões

Amo a chuva. Amo o cheiro de terra molhada, amo o barulho da chuva caindo, amo olhar para fora e ver o mundo cinzento. Mas não há coisa pior para um viajante. Todas as imagens que fazemos das cidades inclui dias lindos de sol, mesmo (e principalmente, para mim) que faça frio. O céu azul, as nuvens claras, a luz do fim da tarde, tudo isso é o que se espera de fotos de viagem. Nada mais desestimulante do que sair para bater perna e ter que levar um guarda-chuvas, e ter que pular as poças d’agua, e ter que se esconder das chuvas mais fortes.

Pois foi o que, até agora, encontramos em Sevilla (vou escrever assim, com a grafia em espanhol, porque sou boçal hehehehe), desafortunadamente. Viemos de Ronda em um ônibus, que nos trouxe em um pouco menos de 2 horas de viagem e pelo qual pagamos 12 euros e alguns centavos. No meio do caminho o tempo foi mudando e ao chegarmos estava tudo cinza. Sem chuva ainda, mas com nuvens muito carregadas.

A casa da amiga onde nos hospedamos fica muito perto do Parque Maria Luisa, lindo, enorme e cheio caminhos, pequenos lagos, caramanchões e pombos. Lá funcionam museus e a famosa Plaza Espanha, que ainda não fomos conhecer. E quando estávamos no meio do passeio, esmiuçando tudo, começa a chover. Argh!

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Museu de Artes e Cultura Populares

Já de guarda-chuvas em punho, tomamos o rumo do Centro com nossa amiga espanhola, comer umas tapas e tomar umas copas, porque mais tarde teríamos o nosso jantar de ano novo. A onda é sair de bar em bar, bebendo e comendo, mas, como era véspera de ano novo, havia muita coisa fechada. Mesmo assim, fomos em dois, conhecidos da nossa amiga. Estavam lotadíssimo. São lugares onde se bebe em pé, junto ao balcão e são peculiares, como os nossos botequins que antigamente. A mim lembrou muito os botecos do Rio de Janeiro.

E, apesar da chuva já foi possível ver as belezas arquitetônicas do centro de Sevilha. A catedral imensa e bastante gótica e a famosa Giralda, uma belíssima torre-campanário, que foi construída como minarete de uma antiga mesquita e depois, acima dela, foi construído o campanário para servir à igreja católica. É possível ver perfeitamente as diferenças de estilo na construção.

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Aqui como em Córdoba, as laranjeiras cheias de frutos estão por toda parte. É uma coisa muito bonita de se ver. Desta praça temos uma visão muito legal, com a Giralda ao fundo.

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Seguiremos. E espero que o céu colabore.