Boston: uma tarde em Havard

Eu ainda era secundarista mas me lembro muito bem quando começaram a construir o campus da nossa UFRN. Corriam os anos de chumbo da ditadura militar no país e o que se dizia era que Campus ou Cidade Universitária era um conceito “moderno”, trazido das universidades americanas e européias. Na verdade, sabíamos nós, a idéia era ter mais controle sobre o movimento estudantil, que naquela época explodia em protestos e manifestações. E ai foram surgindo campi (plural de campus, aha! latim é comigo mesmo, estudei no ginásio) em todos os estados onde haviam universidades federais. Então, na minha cabeça, o conceito que ficou foi de um espaço restrito, muitas vezes cercado, onde se aglomeram as unidades acadêmicas e administrativas.

Claro que eu já tinha visitado outras universidades pelo mundo, mas em Havard foi engraçado. Tomamos um Uber e, de repente, o cara para em uma avenida bastante movimentada. Descemos e os meninos me dizem: “pronto, chegamos em Havard”. Como assim, Havard é o nome dessa cidade? Porque a rua que paramos era uma rua normal, de uma cidade qualquer. Tinha um Starbucks na esquina, um monte de lojas de roupa, assessórios, quitandas, ônibus passando pum lado e pro outro, gente passeando com bebês e cachorros, enfim, nada que lembrasse um campus universitário.

Seguimos e entramos, passando por um portão de ferro. Ai comecei a me sentir mais familiarizada. Porque dentro desse espaço parecia sim um campus. Demos logo de cara com a biblioteca, mas a proporção que fomos entrando, percebo que os prédios não são identificados. Em alguns há nomes de pessoas, tipo “Pavilhão George Washington”. Não soubemos porque isso, mas especulamos que pode ser por questões de segurança. Ou, pelo caráter elitista de Havard, pode ser algo tipo “quem é daqui sabe, os outros não precisam saber”. Lindos gramados e árvores circundam os prédios, tal como a gente ver naqueles filmes sessão da tarde.

Havard foi fundada em 1636, e isso me dá muita raiva. Essa parte da América não foi colonizada muito antes da nossa. Que a universidade de Évora tenha sido inaugurada em 1559, tudo bem porque Portugal é um país antigo, mas aqui??!!!! Que ódio!! Como é que eles tiveram Universidade tão cedo e a gente só começou a pensar nisso 2 séculos depois!

Mas, enfim, Harvard é muito bonita com seu traçado e seus prédios sólidos e vetustos (eita!). Ocorre que não se resume a esse espaço. A Universidade se espalha para além desses portões e ocupa mesmo as ruas do lado de fora. Vi um prédio esquisito, projetado por Le Corbusier, onde funciona o Centro de Artes Visuais; há um prédio novinho em folha onde vai funcionar uma unidade da área da saúde. Então, de fato aquela “cidade” onde paramos é mesmo Havard. A impressão que fiquei é que a cidade foi se construindo ao redor da Universidade e para suprir as necessidades dos alunos, professores e funcionários que, se quiserem e puderem, moram dentro da universidade.

Boston surpreendente

Engraçado como a gente constrói imagens na nossa cabeça e quando nos deparamos com o real, o real nos surpreende. Como se o fato de não bater com o imaginado o real se tornasse irreal. E surpreendente. Todas as imagens mentais que eu tinha de Boston era de uma cidade 1) onde tinham chegado os primeiros imigrantes, 2) como tal era conservadora e aristocrática. Me esquecia completamente que era uma cidade cheia de universitários, vindo de algumas das mais famosas Universidades e Centros de Pesquisa dos EUA. Alguém pode até dizer que Havard e o MIT não estão em Boston, mas em Cambridge. Ok, mas Cambridge e Boston estão separadas apenas pelo rio Charles, que é mais estreito que o Potengi. Assim é como se Cambridge fosse ali, na zona norte, mal comparando (kkkkkkkkkkkkkkkkk).

Passamos 3 dias por lá. Ficamos hospedados em Cambridge, em um hotel super, super gracinha, chamado Kendall, que foi antigamente um quartel de bombeiros, a brigada 7. O hotel é lindo e além disso nos oferece algumas gentilezas, como um happy hour de 2 horas, onde servem vinho e pequenos petiscos. Há um cabide perto da porta, com vários quarda-chuvas para você pegar emprestado, se precisar. Para nós, outra vantagem, e o motivo final da escolha, é que ele fica exatamente em frente ao Google, e Daniel precisava trabalhar prá pagar nosso passeio, ora!

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Obviamente, Boston é História. Para ajudar os turistas, as autoridades traçaram pela cidade linhas que no calçamento que vão levando de um a um aos pontos mais importantes. Isso é muito interessante e o legal é ver as pessoas caminhando por cima da linha, como se não bastasse ver que ela segue por ali. Esse caminho chama-se Freedom Trail e começa em um lindo parque, o Boston Common.

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E é justamente essa característica histórica que faz Boston, em alguns momentos, lembrar muito uma cidade européia, com uns quase-becos, que não chegam perto dos de Córdoba, mas que dá um encanto especial à cidade.

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Além de bater perna pela cidade, duas coisas super valem a pena: uma visita ao Museum of fine Arts e uma subida até o Skywalk. O Museu já na entrada nos brinda com a estátua de um nativo em seu cavalo, numa postura belíssima. No dia que fomos havia uma exposição sobre moda e tecnologia, a qual eu já tinha visto uma boa parte do acervo aqui em Nova York. Mas é sempre curioso você ver vestidos lindos feitos em impressoras 3D, ou roupas delicadíssimas feitas com fibra de carbono.

Do Skywalk se tem uma vista de 360 graus da cidade. Na verdade das cidades, porque, obviamente dá pra ver Cambridge. Além disso, há uma exposição de curiosidades acerca de Boston, bastante interessante. Algumas coisas tipo cultura inútil, mas que eu me diverti. Por exemplo: voce sabia que foi um médico de Boston quem primeiro diagnosticou apendicite? Voce sabia que o primeiro cartão de Natal foi feito em Boston? Voce sabia que o Sr. Goodyear era bostoniano e foi o primeiro a vulcanizar pneus? E por ai vai. É engraçadíssimo.

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Um lugar super legal para se comer, tomar uma cervejinha e eventualmente comprar lembrancinhas é o Quincy Market (comidas e bebidas) e o Faneuill Hall (souvenirs). Um está atrás do outro, de modo que é uma visita só. É um lugar mais cheio de turista, mas nada que incomode ou bagunce. Eu adorei parar e tomar uma cerveja no Cheers. E, por mais incrível que possa parecer, não comprei nada!

Mas, se você quer bater perna por um lugar mais descolado, com cafés e restaurantes mais arrumadinhos, passeie pala Newbury Street. É uma rua linda, com aqueles prediozinhos de tijolos vermelhos, com escadinhas na frente, muito parecidos com os daqui do Brooklyn. Com uma diferença: os primeiros andares são comércio. Lojas de roupas, de bijuterias, cafés, restaurantes. Uma gracinha. Como as lojas ficam no primeiro andar, a gente só vê as vitrines meio que de longe, dai que não sei se os preços são caros, mas tudo indica que sim.

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Boston é uma cidade bastante turística, sobretudo nesse pré-verão. As ruas estão cheia de ônibus tipo hop on-hop off, e tem uns anfíbios com forma de pato (!), que andam pela rua e depois navegam pelo rio. Não fomos, achei que era assim meio mico andar naquilo.

E teve Havard, que conto no próximo post.