Eu gosto muito de cachorro vagabundo

Uma das coisas que mais nos tem chamado a atenção aqui por onde andamos é a quantidade de cachorros de rua (ou “perros callejeros”). São muitos mesmos, por onde que andemos. Mas, o que é mais ainda interessante é a maneira como as pessoas das cidades lidam com eles. Nunca vimos ninguém os enxotando ou mostrando aborrecimento por causa deles, ao contrário, o que observamos foi as pessoas fazendo carinho, dando comida, cuidando deles. Vimos, inclusive, alguns entrando nos restaurantes, passeando entre as mesas e indo embora, sem que ninguém os aborrecesse.

Bom, isso tudo para contar a nossa maravilhosa experiência com um desses cães lindos e livres. Estávamos nós postas em sossego na nossa pousada, tomando um vinho, filosofando sobre a vida e as relações (mulher quando se junta, pode ter certeza, está falando sobre “relação”), quando entra na sala um belo cão branco com manchas pretas, que vem para nós balançando o rabo, nos cheira e se põe a esperar carinho. O que, obviamente, fazemos de imediato. Pensávamos que era um cão da casa que havia sido solto à noite para proteção. E ai ficamos alisando seu lombo, coçando suas orelhas, dizendo coisas bobas de carinho. Quando chega a “chica” que ficava à noite na casa e nos diz que ele não é conhecido e que não tem idéia de como entrou porque tudo estava bem fechado. Imagina o quanto elocubramos sobre a entrada desse cachorro assim, de modo tão inusitado! Só podia ser um sinal! No entanto, tínhamos, que pô-lo pra fora, já que não era da casa. Por mais que o expulsássemos, ele não saia, até que o enganamos, fingindo que iamos sair e, plaft, fechamos a porta. Pense numa tristeza! Foi a que ficamos por ter enganado o tadinho.

nosso cachorro em Salta
nosso cachorro em Salta

Fomos dormir. No dia seguinte, ao sairmos para tomar café, quem encontramos dentro de casa outra vez, com todos tentando coloca-lo prá fora? Ele mesmo! Esperando por nós, claro! E ele nos seguiu o tempo todo em nosso percurso até o centro. Enxotou outros cachorros que ousaram se aproximar, entrou conosco no escritório de turismo onde fomos pegar informações, esperou por nós do lado de fora do lugar onde entramos para tomar um café, entrou conosco na casa de câmbio e deitou-se aos nossos pés enquanto cambiávamos. Era, enfim, nosso cachorro em Salta!

Fernando seguindo Dete
Fernando seguindo Dete

Até que tivemos que tomar um taxi para irmos ao Mercado de Artesanatos e o taxista não permitia que ele entrasse. Que dó ter que deixa-lo alí. Que tristeza ver que ele queria entrar no taxi e termos que o colocar pra fora.

Quando voltamos para casa ainda traziamos a esperança que o encontraríamos na calçada nos esperando. Nada. Nunca mais vimos Fernando, o nome que colocamos nele em homenagem a um nosso amigo muito querido.

 

Salta, o lindo noroeste argentino

Quando fomos à Patagônia, encontramos uma senhora argentina que nos sugeriu visitar o noroeste do país, as províncias de Salta e Jujuy, que seriam regiões muito bonitas e diferentes. Ficamos com aquilo na cabeça, fizemos outras viagens, mas não esquecemos da indicação. Agora viemos.

Nos estudos que fizemos sobre a região descobrimos que Salta é a nova Mendoza, ou seja, está se firmando como uma região produtora de excelentes vinhos, sobretudo da uva torrontés, originaria da Espanha mas muito bem adaptada ao clima salteño. Foi mais um incentivo, claro.

Chegamos a Salta (capital da província do mesmo nome) depois de uma viagem de 17 horas, desde Natal até São Paulo, de São Paulo até Buenos Aires e de Buenos Aires até Salta (pronuncie o “l”, não o transforme em “u”ou ninguém vai entender o que voce fala). Salta é conhecida como La Linda, é uma cidade de porte médio, com cerca de 600 mil habitantes, mas é muito tranquila e segura. Chegamos no Dia de La Raza e havia um desfile de estudantes, com bandas de música e muita pompa, bem em frente ao monumento do General Güemes, o herói nacional que nasceu aqui.

parada

O General Güemes, dá nome a quase tudo por lá e foi nossa referência o belo “Paseo Güemes”, pertinho de nosso hotel, onde estão simpáticos restaurantes, bares e cafés. Um particularmente nos encantou: o Café del Tiempo. Um espaço grande, com vários ambientes e decoração completamente caótica, apesar de harmoniosa. Se come muito bem ai. Experimentei um maravilhoso bife com legumes, suculento e macio.

Café del Tiempo
Café del Tiempo
Paseo Güemes
Paseo Güemes

Essa avenida tem casas lindas, quase todas de inspiração espanhola ou árabe. E são moradia mesmo, imagino que somente de “bacanas”. Um lugar muito gostoso de caminhar, sentar nos bancos azulejados do canteiro central, ficar olhando o tempo passar.

Aqui Fá e Dete fazem pose, e eu faço pose de fotografa do lado de cá
Aqui Fá e Dete fazem pose, e eu faço pose de fotografa do lado de cá

O centro histórico de Salta se situa ao redor da Plaza 9 de Julio. Ai está a Catedral, muito bonita. Normalmente não gosto quando vejo, em países latinos na Europa, igrejas com muito ouro porque imagino que foi todo roubado de nossos países da America do Sul, mas a Igreja de Salta, com seu altar-mór todo em ouro, não me incomodou muito. Na Plaza também está o Cabildo, que vem a ser a administração municipal, com sua arquitetura de arcadas, e o Museu de Antropologia. A grande atração desse Museu são 3 crianças incas mumificadas, encontradas em 1999 a mais de 6.000 metros de altura e que se supõe terem sido sacrificadas. Se quiser fazer cambio de moeda, há um estabelecimento na esquina ao lado da Matriz, que tem ótimas taxas. Por exemplo, trocamos nossos dólares no Banco de La Nación Argentina a 5,8 pesos e nesse lugar cambiamos a 9,10.

Altar da Catedral
Altar da Catedral

Fora da Plaza 9 de Julio uma bela construção, que não pudemos visitar porque estava em obras, é a Igreja de São Francisco. Sua torre é cartão-postal de Salta.

Igreja de S. Francisco
Igreja de S. Francisco

Um dos passeios mais interessantes é subir o Cerro de San Bernardo. Há um teleférico, mas nos dois dias que lá estivemos estava parado para manutenção. Não desistimos, fomos de taxi. E de lá toda La Linda se descortina. E a gente tem a dimensão de como é uma cidade grande, muito bonita, cercada de montanhas.

Vista do Cerro de San Bernardo
Vista do Cerro de San Bernardo