O sol da meia noite

Por aqui a proporção que vai se aproximando o verão o sol vai se pondo cada dia mais tarde e nascendo cada dia mais cedo, tornando os dias mais longos.

Observamos isso muito bem uma vez que desde o navio era mais fácil olhar o horizonte. Não chegamos a ver o sol não se pôr porque estamos viajando em maio, ainda faltando quase um mês para o verão, mas foi lindo e extremamente perturbador ver um deslumbrante pôr do sol às 23:30. Sobretudo porque dali a menos de 3 horas ele viria a nascer de novo.

A verdade é que nunca escurece. Ver estrelas, nem pensar. Por consequência, aurora boreal também não. Há sempre uma luminosidade no céu, como se estivéssemos em um eterno anoitecer (ou amanhecer). Isso perturbou intensamente o meu ritmo circadiano. Eu acordava às 2 da manhã achando que já tinha amanhecido e não conseguia dormir mais.

No inverno dá-se justamente o contrário: de novembro a janeiro o sol não nasce. Imagino que fique uma claridade semelhante à essa, mas com a diferença de que dura pouco tempo, com as noites super longas. Acho que eu não suportaria essa obscuridade por tanto tempo, mas gostaria muito de ver. Por uns 3 dias, talvez.

No fim do mundo ao Norte: o paralelo 71

A nossa quinta parada foi em Honningsvåg. A cidade em si nós nem vimos porque o grande atrativo daqui era tomar um ônibus, andar cerca de 40 minutos e chegar ao ponto mais ao norte da Europa, o ponto habitável mais próximo do Polo Norte desde aqui, o paralelo 71. O tempo estava tenebroso, nublado, com chuva e vento. E gelado, naturalmente.

Antes de chegarmos lá a guia nos falou sobre a população nativa, o povo sami. Daí paramos em um simulacro de aldeia, com direito a um alce pastando e um cidadão vestido trajes típicos (coitados), além de uma loja de souvenir, naturalmente.

O ponto exato – chamado Cabo Norte (ou Nordkapp) é um imenso promontório, onde há um bem organizado centro de informações (com loja de suvenir), café e sala de conferências onde é exibido um vídeo sobre o significado daquele local.

A vista do promontório é algo deslumbrante. A gente fica sem palavras, sério. Essas demonstrações do poder da Natureza sempre me emocionam muito. Fico olhando para aquilo e pensando em o quanto somos pequenos, em como nós perdemos em coisas insignificantes frente a essa grandeza. Enfim, sempre tenho uma certa epifania nesses lugares. Aqui não foi diferente.

Minutos depois de andarmos pelo promontório, fotografarmos e nos embasbacarmos, baixou o maior nevoeiro. Tomando o chocolate na cafeteria não víamos mais nada. Que sorte que demos!

O batismo de Netuno ao cruzar o Ártico

Antes de chegarmos a Tromsø, em plena madrugada, cruzamos a linha do círculo polar ártico. Claro que não vi nada, mas meus companheiros viram e o único sinal é um marco de um globo em uma pedra na margem do fiorde. Dizem que o navio apitou forte. Eu não ouvi nada.

Mas no dia seguinte houve uma celebração a bordo. Uma brincadeira daquelas ridículas que o povo adora e eu fico só rindo do povo adorar. É assim: alguém da tripulação se veste de Netuno e eu que sempre fantasiei um Netuno, rei dos mares, com uma cara e um porte de um Viking parrudo, vejo aparecer um velho corcunda, com narigão e dentões mais parecido com um bruxo que com um rei, apesar de usar coroa.

Uma bacia de pedras de gelo é providenciada e Netuno vai batizando todo mundo que quer ser batizado. O batismo consiste em enfiar em sua roupa pela parte do pescoço uma colherada de pedras de gelo. Tudo isso no convés do barco, com temperaturas beirando os 4 graus. Além do vento que joga a sensação térmica mais pra baixo ainda.

Devo confessar que quis provar daquele frio me descendo pelas costas e fui lá pra fila. Felizmente não há registros desse meu ato de insanidade. Mas não foi nada mortal.